Três Gigantes se Encontram na Selva

Quando três titãs do jazz se encontram em estúdio, o resultado raramente é pacífico. Money Jungle é um álbum que nasceu da tensão, e talvez seja exatamente por isso que funciona tão bem. Gravado em uma única sessão, no dia 17 de setembro de 1962, no Sound Makers Studio, em Nova York, o disco reúne três gerações e três personalidades do jazz que, em tese, não deveriam funcionar juntas. Duke Ellington, aos 63 anos, era o grande senhor das big bands, um aristocrata do piano que havia moldado o jazz desde os anos 1920. Charles Mingus, aos 40, era o revolucionário do contrabaixo, um homem que misturava técnica virtuosística com uma intensidade emocional quase vulcânica. Max Roach, aos 38, representava a vanguarda rítmica do bebop, um baterista que transformou a percussão em instrumento solista.

A história por trás do álbum é quase tão fascinante quanto a música. O produtor Alan Douglas, que havia trabalhado com Ellington em Paris, sugeriu a formação do trio. Mingus insistiu na presença de Roach. O encontro entre Mingus e Ellington não era exatamente inédito — o contrabaixista havia tocado brevemente na orquestra do Duke em 1953, mas foi demitido após apenas quatro dias por brigar com outro músico. Agora, quase uma década depois, eles se reencontravam em condições bem diferentes: três líderes, três egos, três visões distintas do que o jazz deveria ser.

Na véspera da gravação, Ellington disse aos companheiros para pensarem nele como “o Bud Powell do pobre” e que não gostaria de tocar apenas suas próprias composições. Ironia do destino: todas as faixas do álbum acabaram sendo dele. Mingus chegou ao estúdio com suas próprias composições no bolso, mas elas nunca saíram de lá. Essa foi, provavelmente, a primeira fonte de tensão de um dia que mais pareceu uma panela de pressão.

A faixa-título abre o álbum com uma violência sonora que é quase física. Mingus ataca as cordas do contrabaixo com as unhas, criando um som metálico e agressivo que lembra, nas palavras de um crítico, “algo entre um chamado de bisão e uma serra elétrica”. É um som perturbador, quase não musical, que anuncia desde o primeiro segundo que este não será um encontro cordial entre cavalheiros do jazz. Quando Ellington entra com acordes dissonantes e Roach responde com uma bateria incisiva, fica claro que estamos diante de um cabo de guerra musical.

O que torna Money Jungle fascinante é exatamente essa tensão não resolvida. Ao contrário de outras colaborações célebres do jazz, onde os músicos se complementam harmoniosamente, aqui cada um parece estar puxando a música para seu próprio território. Ellington, com sua elegância aristocrática, tenta manter a sofisticação harmônica que sempre caracterizou seu trabalho. Mingus empurra a música para territórios mais experimentais e emocionalmente crus. Roach funciona como uma espécie de árbitro rítmico, ora apoiando um, ora outro, mas sempre mantendo sua própria personalidade musical. Vista os fones e mergulhe para entrar na selva. Prepare-se: o passeio não será tranquilo.